terça-feira, setembro 11, 2007

"Post hoc ergo propter hoc"



A expressão “post hoc ergo propter hoc” – que significa “depois disso, logo por causa disso”, foi considerada válida durante séculos, apesar de ser uma falácia lógica, porque nem sempre os fatos que se sucedem no tempo são conseqüência necessária dos que os antecedem.
O Brasil, por exemplo, findou a monarquia - caracterizada pela honestidade dos dirigentes na condução dos interesses da Nação - interrompendo um ciclo de mais de 40 anos de progresso que antecedeu a proclamação da republica, e caiu na farsa política e na mediocridade econômica - se comparado internacionalmente.
É difícil compreendermos por que, até o fim do reinado de Pedro II, o Brasil era um país mais promissor que os EUA, mais importante que a China, Índia, o Japão, a Coréia e quase todos os países europeus e hoje ocorre o oposto.
O PIB dos EUA é cerca de 13 vezes maior que o nosso e essa nação possui o maior poderio científico, tecnológico, econômico e militar do planeta; a Coréia do Sul, há 40 anos, era um dos países mais atrasados do mundo e hoje é mais desenvolvido que o nosso.
No Brasil, após 118 anos, o regime republicano mantém uma legião de analfabetos, oferece educação da pior qualidade e exames feitos por instituições internacionais comprovam que seus alunos se classificam entre os mais despreparados do mundo. Os sucessivos governos republicanos não foram capazes de resolver as questões mais elementares de educação, saúde, transporte, saneamento e segurança.
Custa a acreditar que a República tenha sido instituída de forma provisória, apoiada por um partido que tinha apenas dois deputados e que o decreto de sua criação estabeleceu: “Art.1º - Fica proclamada provisoriamente e decretada como forma de governo da nação brasileira a república federativa.” Sem ironia e com respeito ao personagem, convém lembrar que o maior responsável pela queda da monarquia foi o diretor de uma escola de cegos. A condição provisória durou até 1993, quando um plebiscito confirmou o regime republicano, a respeito do qual Ruy Barbosa afirmou: “O mal gravíssimo e irremediável das instituições republicanas consiste em deixar exposto à ilimitada concorrência das ambições menos dignas o primeiro lugar do Estado e, desta sorte, o condenar a ser ocupado, em regra, pela mediocridade.” Desiludido com o regime republicano, já em 1914, Ruy pronunciou a famosa frase no Senado, em 17 de Dezembro: “De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver crescer as injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto.”
Passados 118 anos da Proclamação, o legado republicano é essa nação pobre, com uma legião de analfabetos, doentes e inválidos, com criminalidade infrene e miséria generalizada; um sistema educacional vergonhoso, a agricultura em permanentes sobressaltos, a indústria pouco competitiva e perdendo espaços para países emergentes. Não tem estradas, ferrovias, hidrovias e navegação de cabotagem e suas Forças Armadas estão à míngua. Mas nesse mesmo período, e apesar das duas guerras mundiais que quase dizimaram, o Japão e a Europa passaram a apresentar índices de desenvolvimento muito superiores aos nossos.
Sempre aguardando a confirmação do vaticínio de Stephan Zweig, que garantiu ser este o “país do futuro”, o Brasil espera o dia de amanhã e vive à procura de quimeras, a última das quais é inundar o planeta com etanol. Entretanto, talvez por ignorância, deixou de construir os reatores nucleares previsto há três decênios e que supririam a energia que faltará nos próximos anos sem a qual não haverá crescimento. As reformas se repetem, como se leis e decretos bastassem para resolver problemas. “Corruptissima re plubica plurimae leges”, lembrou Tácito – ou, quanto mais corrupta é a República, mais leis ela possui. Qual é o resultado da reforma da educação do governo passado, que instituiu a “década da educação” e criou a biblioteca básica para o primeiro e o segundo graus, que não tinha livros de Matemática, Física, Química, Biologia e Geociências?
Os recentes episódios envolvendo ocupantes de cargos no Executivo e no Legislativo, denunciados por corrupção e delitos diversos, enxovalham a Nação, expõem-nos à execração pública, ao ridículo internacional e nos elegeram valhacouto de megatraficantes e bandidos de todos os matizes. Esses graves desvios de conduta, que não existem apenas na órbita federal e refletem a decomposição moral e ética generalizada, são conseqüência natural da falência da educação, da incompetência, do descaso e da inoperância de órgãos públicos e dos maus exemplos de integrantes das classes dirigentes.
As reformas do ensino são feitas sem critério e os cursos de Direito e Medicina proliferam atendendo a interesse políticos e financeiros; o governo federal cria universidades sem necessidade real e sempre sem contar com professores capazes disponíveis e infra-estrutura adequada; os alunos do ensino fundamental são submetidos a uma pletora de disciplinas ornamentais, supérfluas e até inúteis, mas nem conseguem falar e escrever de forma compreensível. O desastre é generalizado.
Há muito tempo, entretanto, as escolas ensinavam o que era necessário à formação intelectual e profissional e nos incutiam valores morais e éticos permanentes; nessa ocasião, ensinavam-nos Latim e líamos os textos menos difíceis, o livro das Metamorfoses de Publius Ovidius Naso, por exemplo, que tanto tem que ver com os dias de hoje nesta Terra dos Papagaios; “Vivitur ex rapt; non hospes...”, ou seja, “vive-se do roubo; amigos não estavam seguros com amigos, nem parentes com parentes e a bondade era rara entre irmãos...”
Pobre Brasil.



PS: O artigo original é do prof. José Carlos Azevedo - doutor em física pelo MIT e ex reitor da UnB. Foi editado pelo Freeman. A pintura é de Portinari - paisagem de Brodowski, 1940.

2 comentários:

Star disse...

Free, um país formado na sua maioria por bandidos e pessoas não gratas no velho mundo, escravos arrancados de suas origens sem nenhuma chance de evoluir e espertalhões que vieram para cá a fim de enriquecer com o mínimo de esforço, estaria fadado à mediocridade mais cedo ou mais tarde, a república só acelerou os fatos determinantes.

Jorge Nobre disse...

Temos o país que merecemos, não?

Se você for jovem, corre daqui. Se for velho, encontre um jeito de esquecer onde vive.